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Cronos Capital

Quanto um imóvel realmente rende? Como calcular a rentabilidade líquida do aluguel

Da rentabilidade anunciada ao que sobra de verdade: vacância, custos, impostos e o preço total de compra, em um exemplo com números.

Equipe Cronos Capital5 min de leitura

Edifício residencial de fachada escura com varandas, visto de baixo contra o céu azul

A rentabilidade que aparece em anúncios e índices é quase sempre bruta: o aluguel anual dividido pelo preço do imóvel. A rentabilidade líquida é o que sobra depois de vacância, custos não repassados ao inquilino, manutenção, administração e imposto de renda, dividido pelo que você realmente gastou para comprar. No exemplo deste artigo, um imóvel com rentabilidade bruta de 6,5% ao ano entrega entre 2,2% e 3,9% líquidos, dependendo das premissas.

Rentabilidade bruta: o ponto de partida

A conta bruta é simples: aluguel mensal × 12 ÷ preço do imóvel. Um imóvel de R$ 500 mil alugado por R$ 2.700 tem rentabilidade bruta de 6,48% ao ano.

É útil para comparar imóveis entre si e acompanhar o mercado. Em setembro de 2026, segundo o FipeZAP, a rentabilidade bruta média do aluguel residencial era de 6,13% ao ano no Brasil e de 6,43% ao ano em São Paulo. Esses números usam preços anunciados de venda e de aluguel, e não os valores efetivamente negociados, que costumam ser menores.

O que separa o bruto do líquido

Custos de aquisição

O preço do imóvel não é o seu investimento total. Somam-se o ITBI (em São Paulo, 3% do valor da transação), escritura e registro em cartório e, eventualmente, comissão, avaliação e pequenas adequações antes de alugar. Neste exemplo, consideramos 4,2% de custos, o que leva o investimento a R$ 521 mil.

Vacância

É o período sem inquilino, entre um contrato e outro. Além de não receber aluguel, você paga condomínio e IPTU nesses meses. Um mês vago por ano já reduz a receita em 8,3%.

Taxa de administração

Imobiliárias costumam cobrar uma porcentagem do aluguel para administrar o contrato, além de uma taxa na locação. Quem administra sozinho economiza a taxa, mas assume o trabalho e o risco de inadimplência sem apoio.

Manutenção

Pela Lei do Inquilinato, reparos estruturais e de desgaste natural cabem ao proprietário. Pintura entre contratos, troca de equipamentos e consertos hidráulicos ou elétricos entram aqui. Imóveis mais antigos pedem uma reserva maior.

Imposto de renda

Para pessoa física, o aluguel recebido de outra pessoa física é tributado mensalmente pelo carnê-leão, pela tabela progressiva. Para quem já tem renda alta, a alíquota marginal tende a ser a máxima, de 27,5%. Algumas despesas pagas pelo proprietário, como IPTU, condomínio e a comissão da administradora, podem ser deduzidas da base, nos termos das regras da Receita Federal. A reforma tributária (Lei Complementar nº 214/2025) também prevê a cobrança de IBS e CBS sobre locações de pessoas físicas que ultrapassem determinados limites de receita e de número de imóveis, durante a transição. Confirme seu enquadramento com um contador.

Exemplo: imóvel de R$ 500 mil em três cenários

OtimistaBaseConservador
Meses vagos no ano012
Aluguel recebidoR$ 32.400R$ 29.700R$ 27.000
Taxa de administração8% (R$ 2.592)10% (R$ 2.970)10% (R$ 2.700)
Condomínio e IPTU na vacânciaR$ 0R$ 850R$ 1.700
Manutenção no anoR$ 1.500R$ 3.000R$ 5.000
Imposto de rendaR$ 8.197R$ 7.117R$ 6.215
Resultado líquido no anoR$ 20.111R$ 15.763R$ 11.385
Rentabilidade líquida (sobre R$ 521 mil)3,86% a.a.3,03% a.a.2,19% a.a.
Rentabilidade bruta anunciada nos três casos: 6,48% ao ano. Exemplo hipotético, não é projeção de resultado.

O mesmo imóvel, anunciado com 6,48% de rentabilidade, entrega na prática entre 2,2% e 3,9% ao ano, e o imposto de renda é o maior item de redução. A vacância e a manutenção, sozinhas, explicam a diferença entre o cenário otimista e o conservador.

Retorno total: renda mais variação do preço

A rentabilidade líquida mede só a renda. O retorno total de um imóvel soma a renda líquida e a variação do preço ao longo do tempo, que pode ser positiva ou negativa. Se o imóvel do exemplo se valorizasse 4% ao ano em termos nominais, o retorno total no cenário base ficaria perto de 7% ao ano, antes do imposto sobre o ganho de capital na venda e dos custos de venda.

Esse número precisa ser comparado com o custo de oportunidade. Com a Selic em 13,75% ao ano em outubro de 2026, uma aplicação pós-fixada rende, depois do imposto, em torno de 11% a 12% ao ano em termos nominais. No curto prazo, a renda fixa vence essa comparação com folga. O caso do imóvel passa por outros fatores: horizonte longo, proteção do aluguel contra a inflação, uso de crédito sem juros ou com juros menores que o rendimento do capital e um eventual ciclo de queda dos juros. Discutimos esse cenário em como a Selic muda a forma de comprar imóveis.

Os erros mais comuns na conta

  • Dividir o aluguel pelo preço e esquecer ITBI, cartório e preparação do imóvel.
  • Supor 12 meses de aluguel por ano, todos os anos.
  • Ignorar o imposto de renda ou calculá-lo com uma alíquota menor do que a sua.
  • Usar o aluguel anunciado, e não o que imóveis parecidos efetivamente conseguem.
  • Comparar a rentabilidade bruta do imóvel com a rentabilidade líquida de um investimento financeiro.
  • Somar a valorização passada como se fosse garantida no futuro.

Como fazer a sua própria conta

  1. Investimento total = preço + ITBI + escritura e registro + custos de preparação.
  2. Receita anual = aluguel realista × meses esperados de ocupação.
  3. Custos anuais = administração + condomínio e IPTU nos meses vagos + manutenção + seguro, se houver.
  4. Imposto = alíquota marginal × (receita − despesas dedutíveis).
  5. Rentabilidade líquida = (receita − custos − imposto) ÷ investimento total.
  6. Compare com o rendimento líquido de uma alternativa de risco conhecido, no mesmo prazo.

O modelo de locação muda bastante essa conta. Na locação por temporada, a receita bruta pode ser maior, mas os custos também são. Fizemos a comparação completa em Airbnb ou aluguel tradicional.

Conclusão

A rentabilidade anunciada é um ponto de partida, não um resultado. Entre o aluguel do anúncio e o que fica no seu bolso estão os custos de compra, a vacância, a manutenção, a administração e o imposto, que podem levar mais da metade do número bruto. Fazer a conta líquida antes da compra é o que permite comparar imóveis entre si e com outras alternativas de forma honesta, e escolher o imóvel pelo que ele de fato entrega.

Fontes e referências

  1. FipeZAP — Índice de preços de imóveis anunciados (venda e locação) · setembro de 2026: rentabilidade bruta de 6,13% a.a. no Brasil e 6,43% a.a. em São Paulo
  2. Diário do Comércio — Aluguel sobe quase o dobro da inflação em 2026, mostra FipeZap · 14 de outubro de 2026
  3. Receita Federal — Carnê-leão
  4. Lei nº 8.245/1991 — Lei do Inquilinato
  5. Lei Complementar nº 214/2025 — IBS e CBS

Conteúdo informativo, com exemplos hipotéticos quando indicado. Não é recomendação individual de investimento nem promessa de resultado, contemplação, rentabilidade ou valorização.

Próximo passo

Antes de comprar um imóvel para renda, descubra quais números realmente importam.

Na consultoria, fazemos essa conta com os dados reais do imóvel que você está avaliando, comparamos com as alternativas e verificamos se a renda esperada se sustenta no seu plano.